Depois de 5 anos posso dizer que estou curada?

Ela me fez essa pergunta com os olhos marejados. Estávamos completando cinco anos de Letrozol. Cinco anos de exames, consultas, calorões, noites mal dormidas e MEDO. Cinco anos reaprendendo a viver com uma nova versão de si mesma. E eu sabia que, por trás daquela pergunta, havia tantas outras: “Será que posso planejar o futuro sem medo?” “Será que posso relaxar, respirar aliviada?” “Será mesmo que o pior já passou?” Em cada pergunta como essa, vejo a força de um grande mergulho para dentro de si. Mas também vejo as marcas que ele deixou. 🎗️ São anos vivendo com coração dividido: entre o alívio e a ansiedade, gratidão e o medo da recidiva, o desejo de seguir em frente e a lembrança constante de tudo que se enfrentou. Vejo isso todos os dias. A cada consulta, a cada exame de rotina, a cada “e se…” que paira no ar. Mas também vejo renascimentos. Vejo gente que decide que o tempo agora vale mais. Que diz “não” para o que pesa, e “sim” para o que faz sentido. Gente que dança de novo, que viaja, que muda de carreira, que reencontra sua própria voz. Gente que entende que algumas coisas nunca mais serão como antes, e encontra novos caminhos, com altos e baixos. Não existe uma resposta universal a essa pergunta. É importante que sempre esclareçam as dúvidas sobre seus diagnósticos e que se sintam acolhidas. Atrás dessa pergunta, há sempre um coração tentando encontrar um novo jeito de bater em paz.

Vamos com calma “Lá vem ela de novo “.

Acho que devem pensar isso quando leem essa frase. Mas é MUITO importante que entendam que cada história é ÚNICO!

Sempre que recebemos um paciente pela primeira vez no consultório, avaliamos: qual é a doença, se ela cresce rápido ou devagar, qual seu tamanho, entre vários outros fatores.

Qual o próximo passo?
A partir dai definimos o tratamento e, mais adiante, como será feito o acompanhamento e a frequência das consultas.

Nos nós apoiamos em dados científicos e estudos com milhares de pessoas para estimar o risco de recidiva. MAS NÃO SABEMOS EXATAMENTE em quem a doença vai voltar e em que não vai.

E falar isso é essencial porque vejo muitos pacientes que ficam extremamente ansiosos a cada exame e que, de certa forma, paralisam suas vidas com medo da recidiva.

Temos algo a fazer?
Acho que devemos tentar focar no que podemos fazer para diminuir o risco, e não no numero de pesquisas (esse não mudamos!).

Não sabemos se vai voltar, mas estamos fazendo TODOS os tratamentos necessários para diminuir ao máximo esse risco, e que podemos mudar hábitos de vida para DIMINUIR AINDA MAIS.

E seguimos JUNTOS nessa caminhada.


Mas e os 5 anos?
O que sabemos é que quanto mais o tempo passa, menor o risco de doença “voltar”. Mas não sabemos de onde veio exatamente o uso do numero 5 nas perguntas do consultório. Talvez porque em alguns estudos a métrica usada para o calculo de risco geralmente são 5, 10 anos.

Algumas doenças sabemos que não “voltarem” em 2-3 anos, a chance é muito pequena de recidivar mais tarde. Por exemplo: pulmão, pâncreas, estômago, mama triplo negativo etc.

Lembrem-se: isso NÃO é uma regra! Outros, como mama hormônio positivo, podem recidivar mais à frente (mas NÃO SÃO TODOS).

O que temos?

Hoje, por exemplo, prescrevemos a hormonioterapia (tenho vários posts aqui do tema) por ate 10 anos para parte das pacientes com câncer de mama hormônio positivo (tem que ter indicação definida pelo médico).

Da mesma forma, novos tratamentos aparecem. Assim, vamos tendo novas abordagens e olhares sobre o tratamento do câncer.

Um alerta

É comum os pacientes oncológicos deixarem suas consultas exclusivamente nas mãos dos oncologistas e dos cirurgiões que lhes operam.

Somos muito mais que um câncer! É necessário seguirmos com os exames de rotina que seriam feitos mesmo sem a história da doença.

Precisamos realizar preventivo (mulheres), exames de sangue (para ver níveis de colesterol, glicose, etc), aferir a pressão arterial (doenças cardiologista matam mais que câncer, sabiam?), ir ao cardiologista, a partir dos 45 anos realizar uma colonoscopia (quem tem história familiar a idade pode variar) e assim por diante.

Vamos seguir

Não é fácil diagnostico positivo de um câncer, muito menos passar pelo tratamento. E ainda por cima o medo da doença voltar visita nossa mente com frequência.

Mas sempre digo: por qual motivo curamos um câncer se não vamos tentar viver mais felizes a cada dia?

Sempre que o medo vier, siga!

Muitas vezes isso é muito difícil e será importante contar com o apoio de uma equipe com psicólogo, entre várias abordagens possíveis.

E o que mais?
E o que mais?

  • Mantenha hábitos de vida saudáveis
  • Se for difícil, busque ajuda para isso.
  • Autocuidado sempre!
  • Realize seus exames de rotina não relacionados a doença (e os relacionamentos também, rs)
  • Aproveite os momentos de alegria a cada dia e siga adiante.

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